A importância do Plano B na carreira do ator

A carreira de ator de Marco Antônio Pâmio tem mais de 35 anos: estreou em 1984 protagonizando a peça Romeu e Julieta. Foto de Heloísa Bortz

O início da carreira de ator de Marco Antônio Pâmio foi diferente da maioria dos neófitos na profissão. Começou no teatro profissional, em 1984, já protagonizando um clássico de Shakeaspere, “Romeu e Julieta”, dirigido por ninguém menos que Antunes Filho (1929-2019). Pelo seu desempenho, ganhou o prêmio de Melhor Ator Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Mas o talento e a sorte não livraram Pamio de ter de batalhar muito por sua sobrevivência e enfrentar períodos sem trabalho.

“Nunca ninguém me iludiu de que essa chance de começar a carreira protagonizando uma peça de um diretor do quilate, da importância que foi o Antunes, a vida ia ser fácil”, conta. Após três anos, deixou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), a companhia de Antunes filho, aos 23 anos idade. E veio a sensação de um grande vazio. Aos poucos, foi fazendo contatos e conseguiu papeis em duas novelas da Globo, “De quina pra Lua” e “Mandala”, e em uma minissérie, “Memórias de um Gigolô”. Nesse período também fez teatro no Rio de Janeiro.

“Radicalizei. Fui do teatro de pesquisa do Antunes para a indústria, para a televisão. Mas fui me reencontrando dentro dessa ideia de ser um ator freelancer. Mas depois de um ano e meio dois anos, eu me senti de novo naquela fase de não ter projeto futuro, de acabar um trabalho e voltar à estaca zero. Essa é a realidade de um ator”, diz, referindo-se às fases de entressafra próprias da profissão.

Com mais de 35 anos de carreira, várias indicações para prêmios de ator (em 2006, ganhou pela APCA por sua interpretação em “Edmond”, de David Mamet) e diretor (em 2014, ganhou, também pela APCA, pela direção de “Assim é se lhe parece”, de Pirandelo), Pâmio conta a seguir como se tornou “polivalente” e superou essa característica da profissão, que alterna fases com e sem trabalho, conseguindo exercer constantemente o seu ofício.

Aprendi ao longo dos anos, já durante um trabalho que estava fazendo, a projetar um trabalho futuro, a já fazer contatos, para que assim, ao se encerrar um trabalho eu não precise passar meses buscando um outro.

Pâmio na peça A Noite de 16 de Janeiro, que foi dirigida po Jô Soares. Foto de Marco Furlan

Eu tenho tido muita sorte, principalmente depois que eu comecei a dirigir, para também ampliar meus horizontes profissionais, porque de 20 anos para cá, eu não só atuo. Eu comecei a ensinar teatro, coisa que eu faço com o maior prazer. E isso começou porque a fase do desemprego durou um tempo, mas eu fui atrás de uma especialização, fui querer estudar no exterior e ganhei uma bolsa para passar um ano em Londres estudando teatro no Drama Studio.

Isso foi de 1990. Ganhei mais experiência como ator, muita técnica. Como eu tinha muita aula, comecei a observar os professores e, na volta, propus uma oficina para a FAAP — desde então eu também venho me aprimorando no ensino do teatro. As aulas preenchiam os períodos de entressafra entre um trabalho e outro. Porque o professor tem, vamos colocar entre aspas, uma vida mais regrada, no sentido de horário, grade… Isso tudo começou a ficar um pouco mais confortável, pelo menos para pagar as minhas contas.

Porém, eu também vim a ampliar e esgarçar meu repertório como profissional, quando eu comecei a dirigir e eu me apaixonei pela direção — é uma coisa que faço com extremo prazer tanto quanto estar no palco atuando. E desde quando eu comecei a dirigir, além das aulas no paralelo, eu consegui intercalar uma direção e um trabalho de ator.

Na peça Medida por Medida, com direção de Ron Daniels. Foto de João Caldas

Assim, enquanto eu estava em uma peça como ator, eu já sabia que ia dirigir um projeto lá na frente. Estreava uma peça e dali a duas ou três semanas eu começava a dirigir essa outra, enquanto estava em cartaz nos fins de semana como ator. Essa ampliação que eu consegui na carreira, no ofício, só me trouxe benefícios, porque eu não dependo só de estar em cena como ator. Eu gerei um outro olhar como profissional, que é o do diretor, tenho feito trabalhos bem-sucedidos, e não parei de dar aula. Fui contratado pela FAAP em 2004 e lá eu continuo até hoje. E neste ano também vai fazer dez anos que eu sou parte do quadro regular de professores da Escola de Atores Wolf Maya. Lá eu também dirijo montagem de alunos, de formatura, e ensino interpretação.

Em 2019, por exemplo, eu não atuei, mas dirigi três peças: uma no começo do ano, outra no meio do ano e outra no fim do ano. Ou seja, eu estive em atividade de janeiro a dezembro na função de diretor e mantendo as minhas aulas. Este ano, agora em fevereiro, vou começar a ensaiar uma peça como ator (“Cock – Briga de Galo”, do inglês Mike Bartlet), volto para o palco em abril e nesse mesmo mês eu começo a dirigir outra peça (“Terremotos em Londres”, também de Bartlett), que vai estrear em agosto.

A polivalência, o plano B, tem de existir de uma maneira ou outra. Se você for purista com você mesmo, e disser ‘eu sou um ator e ponto final’, você corre o sério risco de passar meses sem trabalhar. Pode passar dois anos sem ter um projeto na mão.”

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