Qualidade de vida, modo de trabalho

Por Adrian Alexandri*, especial para o Dias Úteis e Muito Mais

No campo, na cidade ou na firma: onde é melhor trabalhar?

Trabalhar em casa – o hoje onipresente home office –, assim como as vídeoconferências, que agora têm como sinônimos Zoom, Google Teams, ou o velho Skype, sempre existiram, mas são obrigatoriamente comuns em tempos de quarentena. Estão no trending toppics de qualquer empresa, no linguajar de muita gente que se viu refém de ter que trabalhar no mesmo espaço em que mora.

Quando ingressei no mercado do trabalho como jornalista, e lá se vão mais de 35 anos, as relações de trabalho eram diferentes e – vivendo em redações de jornal ou TV, como foi parte da minha carreira – eram mais “diferentes” ainda. Toda vez que vejo os processos árduos por qual passam muitos profissionais para obter um emprego, penso o privilégio de não ter precisado passar por fases, testes de comportamento e entrevistas duras para garantir minha contratação. Era uma época em que muitas vezes um amigo ou um futuro colega de redação o indicava e, tendo um currículo adequado, estava contratado depois de uma boa conversa com o editor ou diretor do veículo. Era um QI no melhor sentido da expressão, sem passar por cima de outros candidatos. Não havia em muitas redações, à época, processos seletivos estruturados. Precisando contratar, a própria equipe dava nomes e avalizava os candidatos.

Depois fui trabalhar com comunicação corporativa – onde agora completo 20 anos – e as “regras” são outras, pois sendo em agências de comunicação ou empresas tradicionais, os processos e rotinas do ofício são muito mais padronizados. As métricas de metas e resultados se tornam mais claras e, com isso, a carga de trabalho e as cobranças também aumentam.

Ao longo destas décadas, a tecnologia, todos sabem, tomou conta e transformou os modos de se trabalhar. Na comunicação, então, qualquer teórico mais respeitado viu o computador, lá atrás, como um divisor de águas nos processos de informação. Desta forma, o trabalhar em casa hoje é possível, sem dúvida, porque permite que possamos continuar sendo produtivos mesmo que no isolamento espacial. O que importa é que estamos conectados globalmente.

Esta “nova” rotina, para mim, foi um desejo só realizado quando montei meu negócio, um intervalo de pouco mais de quatro anos, na década passada. Era a liberdade que eu pedia, depois de anos de horários nada fixos. Quem já trabalhou em algum veículo de comunicação sabe que não existe o “horário comercial”. A rotina das notícias tem outro ritmo. Mas o aparato tecnológico trouxe, claro, as facilidades que quebraram totalmente a barreira do “nine to five”. E permitiu que ficássemos disponíveis a qualquer hora.

Esse novo modo de trabalho – e aqui estou me referindo à vida com e-mails e, agora mais do que nunca, WhatsApp – nos traz a outra questão: onde trabalhamos mais: no ambiente da ‘firma”, com as muitas tarefas e o quanto estamos on line fora dali; ou em casa, quando de fato o horário do “expediente” fica ainda mais subjetivo?

Para isso, entendo, não há resposta pronta, pois temos variáveis do tipo de trabalho com desenvolvemos até a forma como resolvemos isso. Quantas vezes, seja em casa ou no escritório, tivemos um dia improdutivo?  Ou que fomos tomados por reuniões que não permitiram resolvermos questões banais? O mesmo, de forma semelhante, trabalhando no aconchego do lar.

Os ambientes mudam, a contingência – como agora — pode ser excepcional, mas estou cada vez mais convencido de que produzimos melhor onde conseguimos adaptar o trabalho ao nosso jeito de ser, da nossa forma de executar as tarefas. Claro que há funções onde isso não é possível, mas hoje temos muito mais mecanismos para flexibilizar tarefas, planejar considerando perfis – nosso e de quem está na equipe.

É isso que tenho buscado, a partir de uma mudança mais radical na minha carreira, alinhado ao conceito de que posso ser mais dono do meu tempo, trabalhando de qualquer lugar. Há vantagens e desvantagens que ainda vou experimentar. Tudo isso para garantir, cada vez mais, qualidade de vida, da minha vida.

*Jornalista e consultor

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